SERMÕES E ESTUDOS EM GÊNESIS
(IV). BABEL: O Projeto de Deus X O Projeto das Nações
1. Gênesis em Perspectiva, Recapitulação.
Uma possível divisão do livro de Gênesis seria Gn. 1-2 – Deus se revela através de sua criação; Gn. 3 – 11 – O homem se mostra através de sua rebelião; Gn. 12-50 – Deus inicia seu projeto de redenção. Como vocês já viram nas semanas anteriores, ao invés de tentar nos revelar em detalhes como o mundo foi criado (satisfazendo a mente do homem moderno) Gênesis começa nos revelando o caráter de Deus e seus propósitos para nós através de sua criação; depois, somos apresentados ao pecado (falência) humana em nas diversas dimensões: individual (Gn. 3), familiar (Gn. 4), de toda a raça humana (Gn. 6). Neste último episódio as Escrituras chagam a declarar a generalização do mal: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre para o mal” (Gn.6:5). Em todas essas dimensões vê-se sempre o julgamento divino ao lado de sua iniciativa graciosa e salvadora. Deus nunca desistiu de nós, apesar de nós! Mais do que isso, Ele nunca desistiu de seu projeto inicial para a totalidade de sua criação.
2. O Projeto Declarado e Retomado.
No ato da criação, o Senhor claramente estabeleceu o propósito (sentido) da vida humana. Em Gn.1:26-28 vemos os seguintes imperativos: “domine”, “sejam férteis”, “multipliquem-se”, “encham”, “subjuguem”. O Senhor nos criara para administrar a criação e para recriar a partir do já criado (cultura, ciências, linguagens, artes), tudo para sua glória e louvor. Desde o começo ficou claro que nós escolheríamos fazer tudo isso não com Deus, mas apesar dEle. Então, na época de Noé, a ira do Senhor foi derramada, julgando a humanidade de então, mas em virtude de sua graça, o mesmo projeto é retomado. Em Gn. 9: 1-7, depois que Noé e sua família saem da arca, vemos as mesmas ordens do início com a diferença de que agora não somente o reino vegetal era dado como alimento ao homem, mas também o reino animal. Vejam que no versículo 7 Deus enfatiza: “Mas vocês, sejam férteis e multipliquem-se; espalhem-se pela terra e proliferem nela”. E o que acontece agora? Bem... Aí entra em cena o episódio de hoje.
3. O Projeto Sempre Confrontado.
Gênesis 10 é o capítulo que contém o que é conhecido como Tábua das Origens das Nações, pois descreve a descendência de Noé e mostra como esta espalhou-se pela terra (portanto, a princípio, obedecendo a ordem do Senhor). Leiamos Gn. 10: 1-2, 5-6, 20-21, 31-32.
Agora... como explicar o fato de que esse capítulo enfatiza repedidas vezes que passaram a haver diferentes clãs, com diferentes línguas, em diferentes territórios e no primeiro versículo do capítulo seguinte (11), tenhamos a afirmação: “No mundo todo havia apenas uma só língua, um só modo de falar”? O que acontecera com aquela diversidade do capítulo 10? Ora, sem precisar assumir uma ordem cronológica exata para o livro de Gênesis, tal contraste radical deveria no mínimo chamar bastante a nossa atenção. Bem... parece-nos que aqui estamos diante do surgimento de um império totalitário, talvez o primeiro da história, já que uma das características de um império é a uniformização da linguagem e dos costumes e a extinção da diversidade e criatividade. E no fim das contas, o que é a história da “Torre de Babel” senão uma estória do orgulho, ganância, vaidade e prepotência humanas?
Os nossos ancestrais tinham recebido uma missão do Senhor e esta era a de “encher a terra”, mas, ao contrário, preferiram dizer: “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra” (Gn.11:4). Ao invés da multiplicação, preferiram o inchamento; ao invés de aceitarem o desafio para ir, preferiram o comodismo do permanecer, ao invés do chamado de Deus para fazer história com suas próprias vidas, preferiram o comodismo de fechar a história em razão de seu próprio egoísmo. Não quiseram fazer a vida bela, mas tentaram fazer seus próprios nomes famosos. Tudo isso desagradou ao Senhor e por isso o Senhor os julgou assim como tinha julgado a Adão, Eva, Caim e Noé antes deles. Só que agora o Senhor os julgou “confundindo suas línguas”. O que era para ter acontecido de modo natural (a diversificação ainda maior das línguas), acabou tendo que ser feito por intervenção divina sob a forma de julgamento (a confusão das línguas). O julgamento veio para que o plano de Deus fosse cumprido.
4. A Bíblia como a Estória da Falência dos Reinos desse Mundo.
A Bíblia conta a estória que Deus está escrevendo através da história humana, isto é, da nossa história. Existem várias maneiras possíveis de se olhar para essa estória de amor de Deus da qual fazemos parte como protagonistas. Podemos olhar para a História Universal como “a história da salvação da humanidade”, “a história da procura de um rei digno de governar sobre a criação divina”, “a história das alianças de Deus com o homem”, dentre outras opções. Todas essas formas estão corretas e são explicações complementares válidas, contanto que Cristo seja colocado no centro, como sentido último de toda a trama cósmica. Como está escrito Ele é “o Alfa e o Ômega” (Ap. 1:8). Outra possibilidade de interpretação da história é uma que tem muito haver com o episódio da Torre de Babel. Podemos interpretar a história humana como sendo o palco utilizado pelo SENHOR para demonstrar que todos os impérios e governos humanos são passageiros, limitados e injustos. Fazendo isso Deus nos prepara para encararmos a verdade já anunciada no livro de Apocalipse, isto é, a de que nenhum ser humano com exceção de um foi achado digno de julgar entre as nações e reinar sobre elas. Em Ap.5:1-14 vemos que o apóstolo João chorou prostrado em sua visão apocalíptica ao ver que não havia ninguém digno de julgar a história, mas um anjo o consola chamando sua atenção para “o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” que “venceu para abrir o livro” (5:5).
Enfim, é como se Deus deixasse que nações e impérios surgissem e dominassem por um tempo, permitindo que façam o seu melhor para administrarem a justiça e a paz para a honra e glória dEle. Depois de algum tempo, então, como todas têm falhado em sua missão, Deus as julga por seus próprios pecados e deixa mais claro ainda que só o seu Reino permanecerá no final, pois só Ele é justo, e Cristo é e sempre foi o único Rei digno de reinar sobre a criação divina. Todos os reis das nações têm reinado para sua própria glória em diferentes níveis. Só Jesus reina já e reinará plenamente somente para a glória de Deus e para o bem estar perfeito dos seus irmãos e súditos. Por enquanto, como dizem as Escrituras, o Senhor Jesus está “sentado no trono, à destra de Deus, até que todos os seus inimigos sejam postos por estrado de seus pés” (Sl. 110:1-2 e Hb. 1:13, 10:13). E como está escrito, “Bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus” (Mt.5:3).
5. Aplicação.
· Devemos assumir o nosso lugar como Igreja nessa grande trama cósmica, nos rendendo ao Senhorio de Cristo de uma vez por todas.
· Devemos nos arrepender de nossos projetos imperialistas nas várias áreas das nossas vidas e abraçar o projeto divino da multiplicação, serviço e compartilhamento.
· Devemos nos arrepender do nosso imobilismo e inércia e perguntar ao Senhor como podemos ser úteis no seu reino.
Seminário Teológico da Diocese do Recife - Igreja Anglicana - João Pessoa/Paraíba/Brasil - Sob autoridade primacial da Igreja Anglicana do Cone Sul da América - www.dar.org.br
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008
SERMÕES E ESTUDOS EM GÊNESIS
(III). O DILÚVIO: O “basta” de Deus e um toque de graça
Tradicionalmente, o dilúvio tem sido interpretado como evento cataclísmico que consumiu o planeta inteiro. Outra interpretação é que teria consumido o mundo do Antigo Oriente Médio, uma vasta região, mas, não todo o planeta propriamente dito. Essa última interpretação parece mais consistente com as descobertas da arqueologia, e a Bíblia Genebra lembra que a Bíblia é capaz de utilizar uma linguagem absoluta para descrever acontecimentos relativos. Por outro lado, é interessante observar que existem relatos de um dilúvio de proporções extraordinárias em todas as antigas culturas, o que poderia apoiar a visão tradicional.
Independente da interpretação que adotamos, está evidente que o dilúvio representou um ato de julgamento divino em grande escala: é o “basta” de Deus à iniqüidade primordial. Gênesis 6 afirma que Deus “se arrependeu” de ter feito o homem – não é que Deus tenha mudado de idéia quanto à validade intrínseca do projeto da criação [sobre a imutabilidade da vontade divina veja os comentários na Bíblia Genebra] – antes, essa linguagem nos comunica a profunda tristeza e indignação santa que Deus sente ao ver “o mau desígnio” do coração do homem, e de se deparar com o fato de que a terra toda estava “cheia de violência” (v.11 e 13). A referência aos “filhos de Deus” (anjos) possuindo as filhas dos homens (6:4) também aponta para um crescimento do pecado, onde atinge certa dimensão sobrenatural.
Mas, será que Deus na Sua onisciência não previa essa situação toda? Essa não é uma pergunta que a Bíblia faz, (entretanto, poderíamos afirmar que “sim” Deus previa isso, mas, mesmo assim, não desistiu do ser humano). O texto bíblico nos apresenta apenas o lamento do Senhor ao ver a criatura que foi criada com especial potencial criativo, andar nos caminhos da destruição. É uma grande ironia...
Noé, porém, “achou graça perante o Senhor” (6:8) e é descrito como homem “justo” e “íntegro” (6:9). Segundo o ensino do Novo Testamento, (2 Pe 2:5) Noé era um “pregador da justiça”, a implicação sendo que ele teria avisado à sua geração do julgamento de Deus através da sua pregação. O relato de Gênesis não fala disso, se limitando a reportar a obediência que Noé mostra perante Deus, levando Sua palavra a sério e se organizando com sua família para a vida na arca.
A arca (hebraico “baú”), essencialmente uma enorme caixa flutuante, com três andares, era bem prática, construída apenas para abrigar os oito seres humanos e as “amostra grátis” das espécies que tinham que ser preservadas. Mesmo rude, a arca era um sinal da provisão generosa do Senhor, cujo toque de graça está evidente no detalhe dEle ter fechado a porta da arca (7:16). No meio ao julgamento, a misericórdia e a graça de Deus se manifestam – a humanidade terá outra chance através de Noé – Deus “lembrou de Noé” (8:1, isto é, contemplou favoravelmente, cuidou) e dispersa a água com vento.
Conforme Gênesis 6:18, Deus estabeleceria a Sua aliança com Noé, e quando a pomba, é solta pela segunda vez (observando duas vezes um espaço de sete dias, sugerindo que Noé tinha observado o sábado?), não voltou mais, estava na hora do desembarque e da ratificação da aliança, pois a terra já estava seca.
Seria fácil, ao retornar a terra, nesse momento de júbilo, se esquecer de Deus, mas, não é assim no caso de Noé, pois ele resolve agradecer ao Senhor antes de qualquer coisa. Em Gênesis 8:20 – 22, constrói um altar onde oferece sacrifícios a Deus (para esse propósito – e para o consumo - havia levado sete pares dos animais “limpos”), e Deus, agradado pelo sacrifício, promete que jamais castigaria a terra com tamanha força. Deus abençoa Noé e seus filhos (9:1), e confirma a aliança com eles e a sua descendência e com toda a ordem da criação, a aliança tendo como sinal o arco-íris (9:8 – 17).
A história de Noé, por um lado mostra a seriedade com que Deus leva a maldade do homem na terra. Nós também precisamos levar a sério o pecado, principalmente os nossos pecados individuais, adotando uma atitude “tolerância zero” com eles, e voltando a pedir perdão a Deus, confiantes na eficácia do sacrifício de Jesus por nós. Esse primeiro grande julgamento aponta, sem dúvida, para o juízo final.
Por outro lado, com a primeira menção na Bíblia da palavra “aliança”, através da história de Noé, nós vemos o toque salvador de Deus e somos lembrados do fato que as promessas do Senhor sempre se cumprem. Assim como a nova humanidade recebeu uma nova chance através de Noé, em Cristo, pela Sua graça e misericórdia, Deus nos concede não apenas uma nova chance, mas, uma vida nova com novas possibilidades e novos e eternos horizontes.
(III). O DILÚVIO: O “basta” de Deus e um toque de graça
Tradicionalmente, o dilúvio tem sido interpretado como evento cataclísmico que consumiu o planeta inteiro. Outra interpretação é que teria consumido o mundo do Antigo Oriente Médio, uma vasta região, mas, não todo o planeta propriamente dito. Essa última interpretação parece mais consistente com as descobertas da arqueologia, e a Bíblia Genebra lembra que a Bíblia é capaz de utilizar uma linguagem absoluta para descrever acontecimentos relativos. Por outro lado, é interessante observar que existem relatos de um dilúvio de proporções extraordinárias em todas as antigas culturas, o que poderia apoiar a visão tradicional.
Independente da interpretação que adotamos, está evidente que o dilúvio representou um ato de julgamento divino em grande escala: é o “basta” de Deus à iniqüidade primordial. Gênesis 6 afirma que Deus “se arrependeu” de ter feito o homem – não é que Deus tenha mudado de idéia quanto à validade intrínseca do projeto da criação [sobre a imutabilidade da vontade divina veja os comentários na Bíblia Genebra] – antes, essa linguagem nos comunica a profunda tristeza e indignação santa que Deus sente ao ver “o mau desígnio” do coração do homem, e de se deparar com o fato de que a terra toda estava “cheia de violência” (v.11 e 13). A referência aos “filhos de Deus” (anjos) possuindo as filhas dos homens (6:4) também aponta para um crescimento do pecado, onde atinge certa dimensão sobrenatural.
Mas, será que Deus na Sua onisciência não previa essa situação toda? Essa não é uma pergunta que a Bíblia faz, (entretanto, poderíamos afirmar que “sim” Deus previa isso, mas, mesmo assim, não desistiu do ser humano). O texto bíblico nos apresenta apenas o lamento do Senhor ao ver a criatura que foi criada com especial potencial criativo, andar nos caminhos da destruição. É uma grande ironia...
Noé, porém, “achou graça perante o Senhor” (6:8) e é descrito como homem “justo” e “íntegro” (6:9). Segundo o ensino do Novo Testamento, (2 Pe 2:5) Noé era um “pregador da justiça”, a implicação sendo que ele teria avisado à sua geração do julgamento de Deus através da sua pregação. O relato de Gênesis não fala disso, se limitando a reportar a obediência que Noé mostra perante Deus, levando Sua palavra a sério e se organizando com sua família para a vida na arca.
A arca (hebraico “baú”), essencialmente uma enorme caixa flutuante, com três andares, era bem prática, construída apenas para abrigar os oito seres humanos e as “amostra grátis” das espécies que tinham que ser preservadas. Mesmo rude, a arca era um sinal da provisão generosa do Senhor, cujo toque de graça está evidente no detalhe dEle ter fechado a porta da arca (7:16). No meio ao julgamento, a misericórdia e a graça de Deus se manifestam – a humanidade terá outra chance através de Noé – Deus “lembrou de Noé” (8:1, isto é, contemplou favoravelmente, cuidou) e dispersa a água com vento.
Conforme Gênesis 6:18, Deus estabeleceria a Sua aliança com Noé, e quando a pomba, é solta pela segunda vez (observando duas vezes um espaço de sete dias, sugerindo que Noé tinha observado o sábado?), não voltou mais, estava na hora do desembarque e da ratificação da aliança, pois a terra já estava seca.
Seria fácil, ao retornar a terra, nesse momento de júbilo, se esquecer de Deus, mas, não é assim no caso de Noé, pois ele resolve agradecer ao Senhor antes de qualquer coisa. Em Gênesis 8:20 – 22, constrói um altar onde oferece sacrifícios a Deus (para esse propósito – e para o consumo - havia levado sete pares dos animais “limpos”), e Deus, agradado pelo sacrifício, promete que jamais castigaria a terra com tamanha força. Deus abençoa Noé e seus filhos (9:1), e confirma a aliança com eles e a sua descendência e com toda a ordem da criação, a aliança tendo como sinal o arco-íris (9:8 – 17).
A história de Noé, por um lado mostra a seriedade com que Deus leva a maldade do homem na terra. Nós também precisamos levar a sério o pecado, principalmente os nossos pecados individuais, adotando uma atitude “tolerância zero” com eles, e voltando a pedir perdão a Deus, confiantes na eficácia do sacrifício de Jesus por nós. Esse primeiro grande julgamento aponta, sem dúvida, para o juízo final.
Por outro lado, com a primeira menção na Bíblia da palavra “aliança”, através da história de Noé, nós vemos o toque salvador de Deus e somos lembrados do fato que as promessas do Senhor sempre se cumprem. Assim como a nova humanidade recebeu uma nova chance através de Noé, em Cristo, pela Sua graça e misericórdia, Deus nos concede não apenas uma nova chance, mas, uma vida nova com novas possibilidades e novos e eternos horizontes.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Esboços de pregações no livro de Gênesis (2)
SERMÕES E ESTUDOS EM GÊNESIS
(II). A QUEDA: Quando o homem deixa de levar a sério o “não” de Deus
Limites fazem parte da vida para o nosso próprio bem. Não foi diferente no jardim do Éden. Deus garantiu a liberdade do homem, o deixando escolher as frutas que ele quisesse comer, com uma só ressalva: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (2:17). Ao que parece, foi um teste (assim como no caso de Abraão em Gênesis 22) para ver até onde iria a obediência e fidelidade do ser humano. Infelizmente, o homem falhou, desobedeceu e pecou contra Deus: não levou a sério o “não” divino.
No vocabulário hebraico o “não” utilizado aqui é lo, a palavra negativa mais forte que quer dizer “em hipótese alguma”, “não mesmo”; é a palavra de proibição que aparece nos Dez Mandamentos. Ao invés de ouvir e respeitar esse “não” de Deus, o casal humano dá ouvidos à serpente. Assim como Satanás quando tentando Jesus no deserto (Mt. 4), aqui a serpente tenta instigar o casal a questionar a Palavra de Deus. Ela sugere um caminho alternativo à mulher, e o casal (igualmente responsável pela sua queda), cobiçando ser “como Deus” acaba comendo do fruto proibido.
Os resultados da desobediência são trágicos. Os olhos do casal realmente estão abertos, mas, não em um sentido positivo. O sentimento de vergonha referente à sua nudez é complementado pelo sentimento de culpa que motiva o casal a se esconderem quando o Senhor aparece no jardim. Na decorrência de Gênesis 3 percebe-se a degeneração dos relacionamentos - o homem culpa a mulher pelo pecado (e implicitamente o próprio Deus (3:12)) , enquanto a mulher, por sua vez, culpa a serpente. Até hoje “a raça de Adão” tem grande dificuldade em assumir os seus erros, preferindo culpar os outros pelos deslizes e delitos cometidos...
O castigo de Deus vem sobre a serpente e o casal, e como medida preventiva, os seres humanos são excluídos do jardim, perdendo o acesso à árvore da vida. Nas palavras de John Goldingay:
“Gênesis 3 é uma história que mostra como o ato de não ouvir a voz de Deus prejudica os relacionamentos entre humanos e Deus, entre o homem e a mulher, entre o homem e a sua vocação e entre a humanidade e o mundo”.
A partir do pecado original, a morte entra no mundo de forma espiritual (o relacionamento com Deus não é mais o mesmo), de forma existencial (agora a existência do homem será árdua) e de forma física (a imortalidade fica fora do alcance da humanidade). O livro de Romanos no Novo Testamento sustenta a historicidade da queda, e ensina que o pecado de Adão foi transmitido a toda raça humana de forma que, “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm. 3:23). Quando o “não” de Deus é desconsiderado, os resultados são sempre trágicos. O mesmo vale para a nossa vida...
Por outro lado, é importante salientar a existência do “sim” de Deus. Esse “sim” representa a Sua graça e misericórdia. O “sim” de Deus está evidente em Gênesis 3 quando, apesar da desobediência do casal, Deus fez vestimenta para ele (3:21) o que demonstra o seu cuidado para com eles. Os seres humanos foram infiéis, mas Deus é fiel. O Senhor continua a prover o homem, mesmo num mundo prejudicado pelo pecado.
A justiça de Deus está em ação, mas, ao mesmo tempo, a graça divina permeia a narrativa. Na história de Caim (Gn. 4) o “sim” de Deus novamente aparece. A oferta de Caim (por algum motivo não especificado) é menos aceitável do que a de Abel, e Caim fica triste e irado. Deus, porém, faz questão de ir até ele (4:7) – o profere uma palavra de encorajamento e também aviso – está dando a Caim uma nova chance. Mas, Caim, dominado pelo pecado, acaba matando seu irmão. Diante desse crime Deus aplica medidas punitivas (4:12), mas, assim como no caso de Adão e Eva, continua a pôr sua mão sobre Caim: “pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse” (4:15).
A graça e a misericórdia de Deus se manifestam apesar dos pecados da humanidade. Essa mensagem é a mensagem do evangelho, presente como um fio dourado em toda a escritura sagrada, tendo seu cúmulo em Jesus. Jesus é o “sim” de Deus, Deus entrando em nosso mundo decaído, Deus encarnando e encarando a nossa realidade e morrendo numa cruz para nos salvar.
Na atualidade precisamos estar atentos tanto ao “não” de Deus como ao “sim”. O “não” da lei divina nos lembra que existem limites postos pelo Senhor para o nosso próprio bem e prosperidade. O “não” é para nos orientar no meio das tentações e ciladas de Satanás. Por outro lado, o “sim” – bem mais importante do que o “não” – é a palavra de salvação. É a afirmação de que existe um segundo Adão (cf. Rm. 5), que a vida já conquistou a morte (Jo. 1:5), e que somos novas criaturas em Cristo (2 Cor. 5:17). É a certeza de que mesmo falhos e fracos, Deus está conosco para nos perdoar, restaurar, e levantar em Cristo.
Rev. Marcus Throup
(II). A QUEDA: Quando o homem deixa de levar a sério o “não” de Deus
Limites fazem parte da vida para o nosso próprio bem. Não foi diferente no jardim do Éden. Deus garantiu a liberdade do homem, o deixando escolher as frutas que ele quisesse comer, com uma só ressalva: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (2:17). Ao que parece, foi um teste (assim como no caso de Abraão em Gênesis 22) para ver até onde iria a obediência e fidelidade do ser humano. Infelizmente, o homem falhou, desobedeceu e pecou contra Deus: não levou a sério o “não” divino.
No vocabulário hebraico o “não” utilizado aqui é lo, a palavra negativa mais forte que quer dizer “em hipótese alguma”, “não mesmo”; é a palavra de proibição que aparece nos Dez Mandamentos. Ao invés de ouvir e respeitar esse “não” de Deus, o casal humano dá ouvidos à serpente. Assim como Satanás quando tentando Jesus no deserto (Mt. 4), aqui a serpente tenta instigar o casal a questionar a Palavra de Deus. Ela sugere um caminho alternativo à mulher, e o casal (igualmente responsável pela sua queda), cobiçando ser “como Deus” acaba comendo do fruto proibido.
Os resultados da desobediência são trágicos. Os olhos do casal realmente estão abertos, mas, não em um sentido positivo. O sentimento de vergonha referente à sua nudez é complementado pelo sentimento de culpa que motiva o casal a se esconderem quando o Senhor aparece no jardim. Na decorrência de Gênesis 3 percebe-se a degeneração dos relacionamentos - o homem culpa a mulher pelo pecado (e implicitamente o próprio Deus (3:12)) , enquanto a mulher, por sua vez, culpa a serpente. Até hoje “a raça de Adão” tem grande dificuldade em assumir os seus erros, preferindo culpar os outros pelos deslizes e delitos cometidos...
O castigo de Deus vem sobre a serpente e o casal, e como medida preventiva, os seres humanos são excluídos do jardim, perdendo o acesso à árvore da vida. Nas palavras de John Goldingay:
“Gênesis 3 é uma história que mostra como o ato de não ouvir a voz de Deus prejudica os relacionamentos entre humanos e Deus, entre o homem e a mulher, entre o homem e a sua vocação e entre a humanidade e o mundo”.
A partir do pecado original, a morte entra no mundo de forma espiritual (o relacionamento com Deus não é mais o mesmo), de forma existencial (agora a existência do homem será árdua) e de forma física (a imortalidade fica fora do alcance da humanidade). O livro de Romanos no Novo Testamento sustenta a historicidade da queda, e ensina que o pecado de Adão foi transmitido a toda raça humana de forma que, “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm. 3:23). Quando o “não” de Deus é desconsiderado, os resultados são sempre trágicos. O mesmo vale para a nossa vida...
Por outro lado, é importante salientar a existência do “sim” de Deus. Esse “sim” representa a Sua graça e misericórdia. O “sim” de Deus está evidente em Gênesis 3 quando, apesar da desobediência do casal, Deus fez vestimenta para ele (3:21) o que demonstra o seu cuidado para com eles. Os seres humanos foram infiéis, mas Deus é fiel. O Senhor continua a prover o homem, mesmo num mundo prejudicado pelo pecado.
A justiça de Deus está em ação, mas, ao mesmo tempo, a graça divina permeia a narrativa. Na história de Caim (Gn. 4) o “sim” de Deus novamente aparece. A oferta de Caim (por algum motivo não especificado) é menos aceitável do que a de Abel, e Caim fica triste e irado. Deus, porém, faz questão de ir até ele (4:7) – o profere uma palavra de encorajamento e também aviso – está dando a Caim uma nova chance. Mas, Caim, dominado pelo pecado, acaba matando seu irmão. Diante desse crime Deus aplica medidas punitivas (4:12), mas, assim como no caso de Adão e Eva, continua a pôr sua mão sobre Caim: “pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse” (4:15).
A graça e a misericórdia de Deus se manifestam apesar dos pecados da humanidade. Essa mensagem é a mensagem do evangelho, presente como um fio dourado em toda a escritura sagrada, tendo seu cúmulo em Jesus. Jesus é o “sim” de Deus, Deus entrando em nosso mundo decaído, Deus encarnando e encarando a nossa realidade e morrendo numa cruz para nos salvar.
Na atualidade precisamos estar atentos tanto ao “não” de Deus como ao “sim”. O “não” da lei divina nos lembra que existem limites postos pelo Senhor para o nosso próprio bem e prosperidade. O “não” é para nos orientar no meio das tentações e ciladas de Satanás. Por outro lado, o “sim” – bem mais importante do que o “não” – é a palavra de salvação. É a afirmação de que existe um segundo Adão (cf. Rm. 5), que a vida já conquistou a morte (Jo. 1:5), e que somos novas criaturas em Cristo (2 Cor. 5:17). É a certeza de que mesmo falhos e fracos, Deus está conosco para nos perdoar, restaurar, e levantar em Cristo.
Rev. Marcus Throup
Esboços da série de pregações no livro de Gênesis - Intro
SERMÕES E ESTUDOS EM GÊNESIS
INTRODUÇÃO
Há quem chega ao livro de Gênesis com uma lista de perguntas, tipo: “O que foi que Deus andou fazendo antes da criação do universo? Será que a criação se deu em seis dias mesmo (lembramos que no sétimo Deus descansou)”, ou já que “um dia é como mil anos para o Senhor” (2 Pe. 3:8) deveríamos pensar em termos de milhares de anos ou até milênios? Por que “No princípio, criou Deus os céus e a terra” se Ele já sabia que ia dar errado com Adão e Eva? É possível conciliar a teoria evolucionista de Charles Darwin com os relatos bíblicos da criação? E essa história da serpente falante? Etc.
Ora, embora nós tenhamos interesse em responder tais perguntas, é importante entender que na maioria das vezes, Gênesis não se preocupa com elas, nem se interessa em respondê-las. Não adianta tratar o livro de Gênesis como se fosse uma enciclopédia ou uma obra de teologia sistemática cuidadosamente organizada em tópicos para tirar todas as nossas possíveis dúvidas sobre as origens do mundo. Não é assim, e não é por aí...
Mas, nesse caso, seria Gênesis irrelevante hoje em dia, uma mera relíquia religiosa da antigüidade? Como diria o apóstolo Paulo – de jeito nenhum! O livro de Gênesis, como literatura sagrada divinamente inspirada tem muito a dizer sobre Deus, a humanidade e o mundo. É um livro de caráter teológico que fala poderosamente para a realidade da nossa existência - hoje.
A minha preocupação é simplesmente deixar o texto bíblico falar nos seus termos, ao invés de indagá-lo referentes assuntos sobre os quais ele mantém o silêncio. Estou interessado sobre o que Gênesis afirma sobre Deus e os seres humanos, e embora toquemos em questões polêmicas, não pretendo perder tempo no labirinto das especulações quanto àquilo que Gênesis não aborda e não afirma.
Creio que esse tipo de abordagem – a que reconhece que o livro de Gênesis tende a levantar perguntas próprias ao invés de responder as nossas – é a mais honesta, e a que leva o texto bíblico a sério. Ao invés de sujeitarmos Gênesis à nossa agenda, às nossas preocupações, e aos nossos interesses particulares, nos sujeitaremos a Gênesis para que Deus fale aos nossos corações através do livro, sobre a Sua agenda, as Suas preocupações, e os Seus interesses.
(1). NO PRINCÍPIO: Deus, o mundo, e o ser humano
Gênesis 1 – 2:3 e Gênesis 2:4ss. tratam da criação do universo e da humanidade. Podem ser considerados como dois relatos sobre o mesmo evento (a criação), e são complementares.
O criacionismo entende Gênesis 1 ao pé da letra, de forma literal: que o mundo foi criado em uma semana, e que a origem do universo é mais recente do que a pesquisa da paleontologia sugere. Existem, porém, outras interpretações do relato bíblico da criação, e teólogos, como John Stott (no seu comentário sobre “Romanos”), mostram como a linguagem teológica e simbólica de Gênesis pode ser compatível em muitos aspectos com a pesquisa científica atual acerca das origens do universo e do ser humano.
Esse debate não nos concerne aqui. O que nos interessa são os princípios que o livro de Gênesis traz à tona: organizemos esses princípios em três categorias, Deus, o mundo, e o ser humano.
DEUS
A Bíblia (e Gênesis 1) começa com (e na) presença dEle. Deus não se interessa em nos informar sobre as suas atividades até então, nem comenta sobre a Sua origem. Na verdade, Ele nem revela seu nome (isso acontece somente em Êxodo 3 no episódio da sarça ardente). Deus é Deus e tem todo direito de se revelar como Ele quiser, quando Ele quiser e com quem Ele quiser. Porém, aprendemos certas coisas sobre Ele através da história da criação. Aprendemos, por exemplo, que Ele é o único Deus. Diferente de relatos de outras culturas antigas da região, não existe um panteão de deuses, e o sol e a lua não têm personalidade própria (1:16), não são “deuses”, são apenas luzeiros criados por Deus. O monoteísmo (crença em um só Deus) explícito nos Dez Mandamentos e salientado no livro do profeta Isaías está presente também na primeira página da Bíblia.
O cristianismo acredita que existe um só Deus, mas que esse Deus é três pessoas em um (Pai, Filho e Espírito Santo). Embora não esteja explícito, podemos detectar a ação de Deus como Santíssima Trindade na narrativa bíblica da criação. Conforme Gênesis 1:2 o ruah (que pode ser traduzido como “vento” ou “espírito”) pairava sobre as águas. Muitos comentaristas cristãos entendem que essa é uma referência à participação do Espírito Santo da criação. Do mesmo modo, o “façamos” de Gn. 1:26 parece apontar para a pluralidade do ser divino, e já que o Novo Testamento sustenta a participação de Jesus no ato da criação (cf. Cl. 1:15 – 17), faz sentido interpretá-lo dessa forma.
Conforme o teólogo John Goldingay, o Antigo Testamento oferece uma série de imagens para entender como Deus formou o mundo. Ele agiu como executivo, como rei, como mãe dando à luz, e como artista brilhante. Ficou muito satisfeito com a sua obra, pois, “viu que era bom”.
O MUNDO
O livro de Gênesis deixa absolutamente claro que o mundo, criado do nada por Deus, no seu estado original foi perfeito. O número sete, símbolo da perfeição e plenitude no pensamento hebráico domina o primeiro capítulo de Gênesis. Por exemplo, no original, a primeira sentença de Gênesis 1 contém exatamente sete palavras, e a segunda sentença quatorze (2 x 7). A palavra “Deus” ocorre 35 vezes (5 x 7), “terra” 21 vezes (3 x 7), e as frases “E assim se fez” e “viu Deus que era bom” sete vezes.
Diferente do pensamento platônico dos gregos, a bíblia valoriza o mundo material e físico. O ser humano é feito “do pó da terra” (2:7), fato que indica uma estrita ligação entre o ser humano e o seu ambiente. O homem depende do seu ambiente para (sobre)viver, mas, ao mesmo tempo o ambiente, poderíamos dizer meio-ambiente, está na dependência do homem, já que ele tem que “cultivar” e “guardar” o jardim (2:15).
Frente à atual depredação do meio-ambiente, faz bem lembrar que parte do propósito original de Deus para o ser humano era que ele cuidasse da terra. Gênesis 1 e 2 têm tudo a ver com questões ecológicas, e temas atuais, tais como o aquecimento global e o desmatamento descontrolado das nossas florestas. Infelizmente, temos negligenciado nossas responsabilidades entregues desde a criação.
O SER HUMANO
Criados “na imagem e semelhança” de Deus, tanto o homem como a mulher são criaturas especiais e sagradas. Recebem de Deus “o fôlego da vida” (2:7), e possuem almas. Hoje a vida humana é barateada, mas Gênesis urge, pelo menos implicitamente, que a vida humana seja valorizada e preservada. Todo discurso a favor dos direitos humanos encontra bastante apoio no início da Palavra de Deus.
O casal humano parece em pé de igualdade: são parceiros no trabalho de procriação (e do governo da terra). Por enquanto, a relação entre os dois, e a relação do casal com Deus está harmoniosa. Se trata sim, de um verdadeiro paraíso... (continua)
Rev. Marcus Throup
INTRODUÇÃO
Há quem chega ao livro de Gênesis com uma lista de perguntas, tipo: “O que foi que Deus andou fazendo antes da criação do universo? Será que a criação se deu em seis dias mesmo (lembramos que no sétimo Deus descansou)”, ou já que “um dia é como mil anos para o Senhor” (2 Pe. 3:8) deveríamos pensar em termos de milhares de anos ou até milênios? Por que “No princípio, criou Deus os céus e a terra” se Ele já sabia que ia dar errado com Adão e Eva? É possível conciliar a teoria evolucionista de Charles Darwin com os relatos bíblicos da criação? E essa história da serpente falante? Etc.
Ora, embora nós tenhamos interesse em responder tais perguntas, é importante entender que na maioria das vezes, Gênesis não se preocupa com elas, nem se interessa em respondê-las. Não adianta tratar o livro de Gênesis como se fosse uma enciclopédia ou uma obra de teologia sistemática cuidadosamente organizada em tópicos para tirar todas as nossas possíveis dúvidas sobre as origens do mundo. Não é assim, e não é por aí...
Mas, nesse caso, seria Gênesis irrelevante hoje em dia, uma mera relíquia religiosa da antigüidade? Como diria o apóstolo Paulo – de jeito nenhum! O livro de Gênesis, como literatura sagrada divinamente inspirada tem muito a dizer sobre Deus, a humanidade e o mundo. É um livro de caráter teológico que fala poderosamente para a realidade da nossa existência - hoje.
A minha preocupação é simplesmente deixar o texto bíblico falar nos seus termos, ao invés de indagá-lo referentes assuntos sobre os quais ele mantém o silêncio. Estou interessado sobre o que Gênesis afirma sobre Deus e os seres humanos, e embora toquemos em questões polêmicas, não pretendo perder tempo no labirinto das especulações quanto àquilo que Gênesis não aborda e não afirma.
Creio que esse tipo de abordagem – a que reconhece que o livro de Gênesis tende a levantar perguntas próprias ao invés de responder as nossas – é a mais honesta, e a que leva o texto bíblico a sério. Ao invés de sujeitarmos Gênesis à nossa agenda, às nossas preocupações, e aos nossos interesses particulares, nos sujeitaremos a Gênesis para que Deus fale aos nossos corações através do livro, sobre a Sua agenda, as Suas preocupações, e os Seus interesses.
(1). NO PRINCÍPIO: Deus, o mundo, e o ser humano
Gênesis 1 – 2:3 e Gênesis 2:4ss. tratam da criação do universo e da humanidade. Podem ser considerados como dois relatos sobre o mesmo evento (a criação), e são complementares.
O criacionismo entende Gênesis 1 ao pé da letra, de forma literal: que o mundo foi criado em uma semana, e que a origem do universo é mais recente do que a pesquisa da paleontologia sugere. Existem, porém, outras interpretações do relato bíblico da criação, e teólogos, como John Stott (no seu comentário sobre “Romanos”), mostram como a linguagem teológica e simbólica de Gênesis pode ser compatível em muitos aspectos com a pesquisa científica atual acerca das origens do universo e do ser humano.
Esse debate não nos concerne aqui. O que nos interessa são os princípios que o livro de Gênesis traz à tona: organizemos esses princípios em três categorias, Deus, o mundo, e o ser humano.
DEUS
A Bíblia (e Gênesis 1) começa com (e na) presença dEle. Deus não se interessa em nos informar sobre as suas atividades até então, nem comenta sobre a Sua origem. Na verdade, Ele nem revela seu nome (isso acontece somente em Êxodo 3 no episódio da sarça ardente). Deus é Deus e tem todo direito de se revelar como Ele quiser, quando Ele quiser e com quem Ele quiser. Porém, aprendemos certas coisas sobre Ele através da história da criação. Aprendemos, por exemplo, que Ele é o único Deus. Diferente de relatos de outras culturas antigas da região, não existe um panteão de deuses, e o sol e a lua não têm personalidade própria (1:16), não são “deuses”, são apenas luzeiros criados por Deus. O monoteísmo (crença em um só Deus) explícito nos Dez Mandamentos e salientado no livro do profeta Isaías está presente também na primeira página da Bíblia.
O cristianismo acredita que existe um só Deus, mas que esse Deus é três pessoas em um (Pai, Filho e Espírito Santo). Embora não esteja explícito, podemos detectar a ação de Deus como Santíssima Trindade na narrativa bíblica da criação. Conforme Gênesis 1:2 o ruah (que pode ser traduzido como “vento” ou “espírito”) pairava sobre as águas. Muitos comentaristas cristãos entendem que essa é uma referência à participação do Espírito Santo da criação. Do mesmo modo, o “façamos” de Gn. 1:26 parece apontar para a pluralidade do ser divino, e já que o Novo Testamento sustenta a participação de Jesus no ato da criação (cf. Cl. 1:15 – 17), faz sentido interpretá-lo dessa forma.
Conforme o teólogo John Goldingay, o Antigo Testamento oferece uma série de imagens para entender como Deus formou o mundo. Ele agiu como executivo, como rei, como mãe dando à luz, e como artista brilhante. Ficou muito satisfeito com a sua obra, pois, “viu que era bom”.
O MUNDO
O livro de Gênesis deixa absolutamente claro que o mundo, criado do nada por Deus, no seu estado original foi perfeito. O número sete, símbolo da perfeição e plenitude no pensamento hebráico domina o primeiro capítulo de Gênesis. Por exemplo, no original, a primeira sentença de Gênesis 1 contém exatamente sete palavras, e a segunda sentença quatorze (2 x 7). A palavra “Deus” ocorre 35 vezes (5 x 7), “terra” 21 vezes (3 x 7), e as frases “E assim se fez” e “viu Deus que era bom” sete vezes.
Diferente do pensamento platônico dos gregos, a bíblia valoriza o mundo material e físico. O ser humano é feito “do pó da terra” (2:7), fato que indica uma estrita ligação entre o ser humano e o seu ambiente. O homem depende do seu ambiente para (sobre)viver, mas, ao mesmo tempo o ambiente, poderíamos dizer meio-ambiente, está na dependência do homem, já que ele tem que “cultivar” e “guardar” o jardim (2:15).
Frente à atual depredação do meio-ambiente, faz bem lembrar que parte do propósito original de Deus para o ser humano era que ele cuidasse da terra. Gênesis 1 e 2 têm tudo a ver com questões ecológicas, e temas atuais, tais como o aquecimento global e o desmatamento descontrolado das nossas florestas. Infelizmente, temos negligenciado nossas responsabilidades entregues desde a criação.
O SER HUMANO
Criados “na imagem e semelhança” de Deus, tanto o homem como a mulher são criaturas especiais e sagradas. Recebem de Deus “o fôlego da vida” (2:7), e possuem almas. Hoje a vida humana é barateada, mas Gênesis urge, pelo menos implicitamente, que a vida humana seja valorizada e preservada. Todo discurso a favor dos direitos humanos encontra bastante apoio no início da Palavra de Deus.
O casal humano parece em pé de igualdade: são parceiros no trabalho de procriação (e do governo da terra). Por enquanto, a relação entre os dois, e a relação do casal com Deus está harmoniosa. Se trata sim, de um verdadeiro paraíso... (continua)
Rev. Marcus Throup
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Deus no Inferno ou Deus do Inferno?
Uma breve reflexão sobre a meditação do Rev. Simonton
“Se Deus é onipresente, Ele estaria no inferno?” Depende. Depende da definição de termos e da postura lógica e/ou teológica do intérprete.
Primeiramente, há comentaristas bíblicos e teólogos que desacreditam no inferno como local. Segundo eles, embora Hades, o inferno no mundo greco-romano e na tradição judaico-cristã, tenha sido representado como lugar, tal representação poderia ser interpretada metaforicamente, de forma que, o inferno seria mais um estado ontológico após a morte do que a isolação da alma a uma região geográfica como medida punitiva. Conforme essa visão, qualquer realidade física da experiência pós-morte é dissolvida. Já que nessa leitura o inferno não se trata de uma categoria espacial, a pergunta sobre a presença de Deus nele seria necessariamente desqualificada como non sequitor.
Todavia, utilizando o princípio agostiniano da hermenêutica – de que o claro ensino do texto deve prevalecer – afirmamos que a Sagrada Escritura parece indicar que o inferno se trata de uma realidade física, “um lugar de castigo” nas palavras do Reverendo Simonton. Se é que o inferno existe como região geográfica delimitada (Lucas 16 menciona o abismo que separa o inferno do lugar abençoado onde se encontra o pobre Lázaro no seio de Abraão), a nossa pergunta entra em campo novamente. Penso que existam duas respostas possíveis, a puramente lógica e a teológica.
Conforme a lógica pura, o fato de Deus ser onipresente necessita a afirmação de que Ele está no inferno, pois, se Ele não está no inferno Ele não poderia ser onipresente. O problema, porém, é que a bíblia e a tradição da igreja enfatizam o elemento da separação que há entre o Céu e o inferno. O inferno parece ser caracterizado pela ausência e não a presença de Deus; é por isso, afinal, que o inferno é um lugar tão terrível. Aqueles que respondem à pergunta por meio da lógica pura afirmam que Deus está sim presente no inferno, Simonton escreve:
“Há dois aspectos do castigo no inferno – a dor da perda e a dor de sentir. A dor da perda é a ausência de tudo que é bom; mais significativamente é a separação de Deus. Isto não quer dizer que Deus não está no inferno; significa que aqueles no inferno não terão comunhão com Deus e não experimentarão nada de Seu amor, graça ou benção. Em outras palavras, eles serão isolados de qualquer gozo de Sua glória espetacular.” (grifo nosso).
Nós concordamos com as afirmações de Simonton, mas questionamos a necessidade da conclusão que está grifada. A tentativa de proceder na base estrita da lógica acaba sacrificando a mesma, pois, se como Simonton afirma de Mateus 25:30 que o inferno indica “uma ausência de todo bem”, Deus que se auto-define com a palavra amor não poderia estar presente, da mesma forma, se Deus é luz e nele não há nenhuma escuridão, a lógica pediria que o inferno fosse pelo menos iluminado pela presença literal de Deus nele, mas a impressão que temos dele da Sagrada Escritura é que é um lugar da mais profunda escuridão e trevas.
Mais adiante o autor afirma: “Embora Deus não esteja no inferno em graça e benção, Ele está lá em santidade de ira”, agora estamos nos aproximando mais à resposta teológica que entende a presença de Deus no inferno em termos dos seus atributos como justo Juiz. Dizer que Deus “está lá em santidade de ira” poderia ser interpretado como afirmar que o inferno não escapa da sua esfera de influência. Ou seja, figurativamente, Deus está presente no inferno, assim como – inegavelmente, de certa forma, o autor está presente no livro, mesmo que ele não se enquadre fisicamente entre as suas páginas.
Contudo, Simonton (a não ser que empregue o verbo “estar” de forma não literal) parece insistir na presença literal de Deus no inferno:
“Novamente, é importante notar que quando falamos daqueles no inferno como estando “separados” de Deus, isto não significa que Deus não está no inferno. Significa que os perdidos serão separados da comunhão com Ele – eles não experimentarão Sua gloriosa presença e amor, mas antes a Sua ira e desprazer.”
Ora, é difícil tirar essa conclusão do texto que é citado (2 Ts. 1:7-9), quando esse explica que aqueles que sofrerão “a perdição eterna” serão “banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”. Novamente, a busca de provar o princípio da onipresença divina através da lógica acaba se equivocando, pois, para a lógica e a filologia, separação implica distância, e ausência física.
Para evitar o impasse a resposta teológica à pergunta responderia que Deus sim é onipresente, mas que se manifesta no inferno através da sua própria ausência. Assim, Ele está presente no inferno (figurativamente) na sua justiça e “em santidade de ira”. Se essa abordagem - falando estritamente - fere os princípios da lógica, questionemos até que ponto a lógica pura é adequada como ferramenta para decifrar esse tipo de problema.
Na história da igreja quando se trata dos mistérios da fé, existe essa mesma indagação quanto aos limites de uma interpretação que procura preservar a lógica. Na época da Reforma Protestante, por exemplo, surgiu uma polêmica entre Luteranos e Calvinistas no contexto da teologia da eucaristia. Calvino, trabalhando a tese lógica Finitum non capax Infiniti (o finito é incapaz (de assumir) o infinito), ou seja, a natureza humana de Jesus é incapaz de assumir plenamente a natureza divina, formulou o que tem sido conhecido como o extra Calvinisticum – a idéia de que a deidade de Cristo existiu não somente em Jesus, mas de certa forma, além de e independente do Verbo Encarnado. Aqui, o recorrer à argumentação lógica acaba criando sérias dificuldades para a cristologia, pois, como Deus, Jesus é onipresente, mas como homem é limitado à mão direita do Pai – diferente da visão luterana da ubiqüidade em que Cristo como um todo é onipresente – a interpretação Calvinista acaba ameaçando a unidade das duas naturezas de Cristo e parece criar uma espécie de Senhor esquizofrênico.
Para concluir, portanto, posso afirmar que estou de acordo com quase tudo o que o Reverendo Simonton elaborou. Fica claro, no entanto, que a interpretação de Simonton é uma das possíveis, mas não a única. Ao invés de afirmar que “Deus está no inferno”, declaração essa que tende a confundir aqueles irmãos menos instruídos, sugiro que seja mais proveitoso afirmar que Deus é soberano tendo plena autoridade sobre o inferno e que assim, não seria Deus no inferno, mas Deus do inferno (o inferno estando sujeito a Ele assim como a terra e o Céu).
Autor: Rev. Marcus O. Throup - Missionário da SAMS (Inglaterra) - Teólogo residente da Con-Catedral em João Pessoa/PB - Professor do SAT-PB
“Se Deus é onipresente, Ele estaria no inferno?” Depende. Depende da definição de termos e da postura lógica e/ou teológica do intérprete.
Primeiramente, há comentaristas bíblicos e teólogos que desacreditam no inferno como local. Segundo eles, embora Hades, o inferno no mundo greco-romano e na tradição judaico-cristã, tenha sido representado como lugar, tal representação poderia ser interpretada metaforicamente, de forma que, o inferno seria mais um estado ontológico após a morte do que a isolação da alma a uma região geográfica como medida punitiva. Conforme essa visão, qualquer realidade física da experiência pós-morte é dissolvida. Já que nessa leitura o inferno não se trata de uma categoria espacial, a pergunta sobre a presença de Deus nele seria necessariamente desqualificada como non sequitor.
Todavia, utilizando o princípio agostiniano da hermenêutica – de que o claro ensino do texto deve prevalecer – afirmamos que a Sagrada Escritura parece indicar que o inferno se trata de uma realidade física, “um lugar de castigo” nas palavras do Reverendo Simonton. Se é que o inferno existe como região geográfica delimitada (Lucas 16 menciona o abismo que separa o inferno do lugar abençoado onde se encontra o pobre Lázaro no seio de Abraão), a nossa pergunta entra em campo novamente. Penso que existam duas respostas possíveis, a puramente lógica e a teológica.
Conforme a lógica pura, o fato de Deus ser onipresente necessita a afirmação de que Ele está no inferno, pois, se Ele não está no inferno Ele não poderia ser onipresente. O problema, porém, é que a bíblia e a tradição da igreja enfatizam o elemento da separação que há entre o Céu e o inferno. O inferno parece ser caracterizado pela ausência e não a presença de Deus; é por isso, afinal, que o inferno é um lugar tão terrível. Aqueles que respondem à pergunta por meio da lógica pura afirmam que Deus está sim presente no inferno, Simonton escreve:
“Há dois aspectos do castigo no inferno – a dor da perda e a dor de sentir. A dor da perda é a ausência de tudo que é bom; mais significativamente é a separação de Deus. Isto não quer dizer que Deus não está no inferno; significa que aqueles no inferno não terão comunhão com Deus e não experimentarão nada de Seu amor, graça ou benção. Em outras palavras, eles serão isolados de qualquer gozo de Sua glória espetacular.” (grifo nosso).
Nós concordamos com as afirmações de Simonton, mas questionamos a necessidade da conclusão que está grifada. A tentativa de proceder na base estrita da lógica acaba sacrificando a mesma, pois, se como Simonton afirma de Mateus 25:30 que o inferno indica “uma ausência de todo bem”, Deus que se auto-define com a palavra amor não poderia estar presente, da mesma forma, se Deus é luz e nele não há nenhuma escuridão, a lógica pediria que o inferno fosse pelo menos iluminado pela presença literal de Deus nele, mas a impressão que temos dele da Sagrada Escritura é que é um lugar da mais profunda escuridão e trevas.
Mais adiante o autor afirma: “Embora Deus não esteja no inferno em graça e benção, Ele está lá em santidade de ira”, agora estamos nos aproximando mais à resposta teológica que entende a presença de Deus no inferno em termos dos seus atributos como justo Juiz. Dizer que Deus “está lá em santidade de ira” poderia ser interpretado como afirmar que o inferno não escapa da sua esfera de influência. Ou seja, figurativamente, Deus está presente no inferno, assim como – inegavelmente, de certa forma, o autor está presente no livro, mesmo que ele não se enquadre fisicamente entre as suas páginas.
Contudo, Simonton (a não ser que empregue o verbo “estar” de forma não literal) parece insistir na presença literal de Deus no inferno:
“Novamente, é importante notar que quando falamos daqueles no inferno como estando “separados” de Deus, isto não significa que Deus não está no inferno. Significa que os perdidos serão separados da comunhão com Ele – eles não experimentarão Sua gloriosa presença e amor, mas antes a Sua ira e desprazer.”
Ora, é difícil tirar essa conclusão do texto que é citado (2 Ts. 1:7-9), quando esse explica que aqueles que sofrerão “a perdição eterna” serão “banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”. Novamente, a busca de provar o princípio da onipresença divina através da lógica acaba se equivocando, pois, para a lógica e a filologia, separação implica distância, e ausência física.
Para evitar o impasse a resposta teológica à pergunta responderia que Deus sim é onipresente, mas que se manifesta no inferno através da sua própria ausência. Assim, Ele está presente no inferno (figurativamente) na sua justiça e “em santidade de ira”. Se essa abordagem - falando estritamente - fere os princípios da lógica, questionemos até que ponto a lógica pura é adequada como ferramenta para decifrar esse tipo de problema.
Na história da igreja quando se trata dos mistérios da fé, existe essa mesma indagação quanto aos limites de uma interpretação que procura preservar a lógica. Na época da Reforma Protestante, por exemplo, surgiu uma polêmica entre Luteranos e Calvinistas no contexto da teologia da eucaristia. Calvino, trabalhando a tese lógica Finitum non capax Infiniti (o finito é incapaz (de assumir) o infinito), ou seja, a natureza humana de Jesus é incapaz de assumir plenamente a natureza divina, formulou o que tem sido conhecido como o extra Calvinisticum – a idéia de que a deidade de Cristo existiu não somente em Jesus, mas de certa forma, além de e independente do Verbo Encarnado. Aqui, o recorrer à argumentação lógica acaba criando sérias dificuldades para a cristologia, pois, como Deus, Jesus é onipresente, mas como homem é limitado à mão direita do Pai – diferente da visão luterana da ubiqüidade em que Cristo como um todo é onipresente – a interpretação Calvinista acaba ameaçando a unidade das duas naturezas de Cristo e parece criar uma espécie de Senhor esquizofrênico.
Para concluir, portanto, posso afirmar que estou de acordo com quase tudo o que o Reverendo Simonton elaborou. Fica claro, no entanto, que a interpretação de Simonton é uma das possíveis, mas não a única. Ao invés de afirmar que “Deus está no inferno”, declaração essa que tende a confundir aqueles irmãos menos instruídos, sugiro que seja mais proveitoso afirmar que Deus é soberano tendo plena autoridade sobre o inferno e que assim, não seria Deus no inferno, mas Deus do inferno (o inferno estando sujeito a Ele assim como a terra e o Céu).
Autor: Rev. Marcus O. Throup - Missionário da SAMS (Inglaterra) - Teólogo residente da Con-Catedral em João Pessoa/PB - Professor do SAT-PB
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