quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Esboços de pregações no livro de Gênesis (2)

SERMÕES E ESTUDOS EM GÊNESIS

(II). A QUEDA: Quando o homem deixa de levar a sério o “não” de Deus

Limites fazem parte da vida para o nosso próprio bem. Não foi diferente no jardim do Éden. Deus garantiu a liberdade do homem, o deixando escolher as frutas que ele quisesse comer, com uma só ressalva: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (2:17). Ao que parece, foi um teste (assim como no caso de Abraão em Gênesis 22) para ver até onde iria a obediência e fidelidade do ser humano. Infelizmente, o homem falhou, desobedeceu e pecou contra Deus: não levou a sério o “não” divino.
No vocabulário hebraico o “não” utilizado aqui é lo, a palavra negativa mais forte que quer dizer “em hipótese alguma”, “não mesmo”; é a palavra de proibição que aparece nos Dez Mandamentos. Ao invés de ouvir e respeitar esse “não” de Deus, o casal humano dá ouvidos à serpente. Assim como Satanás quando tentando Jesus no deserto (Mt. 4), aqui a serpente tenta instigar o casal a questionar a Palavra de Deus. Ela sugere um caminho alternativo à mulher, e o casal (igualmente responsável pela sua queda), cobiçando ser “como Deus” acaba comendo do fruto proibido.
Os resultados da desobediência são trágicos. Os olhos do casal realmente estão abertos, mas, não em um sentido positivo. O sentimento de vergonha referente à sua nudez é complementado pelo sentimento de culpa que motiva o casal a se esconderem quando o Senhor aparece no jardim. Na decorrência de Gênesis 3 percebe-se a degeneração dos relacionamentos - o homem culpa a mulher pelo pecado (e implicitamente o próprio Deus (3:12)) , enquanto a mulher, por sua vez, culpa a serpente. Até hoje “a raça de Adão” tem grande dificuldade em assumir os seus erros, preferindo culpar os outros pelos deslizes e delitos cometidos...
O castigo de Deus vem sobre a serpente e o casal, e como medida preventiva, os seres humanos são excluídos do jardim, perdendo o acesso à árvore da vida. Nas palavras de John Goldingay:

“Gênesis 3 é uma história que mostra como o ato de não ouvir a voz de Deus prejudica os relacionamentos entre humanos e Deus, entre o homem e a mulher, entre o homem e a sua vocação e entre a humanidade e o mundo”.

A partir do pecado original, a morte entra no mundo de forma espiritual (o relacionamento com Deus não é mais o mesmo), de forma existencial (agora a existência do homem será árdua) e de forma física (a imortalidade fica fora do alcance da humanidade). O livro de Romanos no Novo Testamento sustenta a historicidade da queda, e ensina que o pecado de Adão foi transmitido a toda raça humana de forma que, “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm. 3:23). Quando o “não” de Deus é desconsiderado, os resultados são sempre trágicos. O mesmo vale para a nossa vida...
Por outro lado, é importante salientar a existência do “sim” de Deus. Esse “sim” representa a Sua graça e misericórdia. O “sim” de Deus está evidente em Gênesis 3 quando, apesar da desobediência do casal, Deus fez vestimenta para ele (3:21) o que demonstra o seu cuidado para com eles. Os seres humanos foram infiéis, mas Deus é fiel. O Senhor continua a prover o homem, mesmo num mundo prejudicado pelo pecado.
A justiça de Deus está em ação, mas, ao mesmo tempo, a graça divina permeia a narrativa. Na história de Caim (Gn. 4) o “sim” de Deus novamente aparece. A oferta de Caim (por algum motivo não especificado) é menos aceitável do que a de Abel, e Caim fica triste e irado. Deus, porém, faz questão de ir até ele (4:7) – o profere uma palavra de encorajamento e também aviso – está dando a Caim uma nova chance. Mas, Caim, dominado pelo pecado, acaba matando seu irmão. Diante desse crime Deus aplica medidas punitivas (4:12), mas, assim como no caso de Adão e Eva, continua a pôr sua mão sobre Caim: “pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse” (4:15).
A graça e a misericórdia de Deus se manifestam apesar dos pecados da humanidade. Essa mensagem é a mensagem do evangelho, presente como um fio dourado em toda a escritura sagrada, tendo seu cúmulo em Jesus. Jesus é o “sim” de Deus, Deus entrando em nosso mundo decaído, Deus encarnando e encarando a nossa realidade e morrendo numa cruz para nos salvar.
Na atualidade precisamos estar atentos tanto ao “não” de Deus como ao “sim”. O “não” da lei divina nos lembra que existem limites postos pelo Senhor para o nosso próprio bem e prosperidade. O “não” é para nos orientar no meio das tentações e ciladas de Satanás. Por outro lado, o “sim” – bem mais importante do que o “não” – é a palavra de salvação. É a afirmação de que existe um segundo Adão (cf. Rm. 5), que a vida já conquistou a morte (Jo. 1:5), e que somos novas criaturas em Cristo (2 Cor. 5:17). É a certeza de que mesmo falhos e fracos, Deus está conosco para nos perdoar, restaurar, e levantar em Cristo.

Rev. Marcus Throup

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